Tenho dito que esse time do Flamengo gira em torno de Gerson. Se não disse, digo agora. Gerson é o centro gravitacional do time. É a partir dos espaços que ele ocupa em campo que o time circula. E não por acaso. Gerson é craque e, como todo craque, tem uma inteligência absurda para se colocar em campo, para dançar a dança que cada partida exige, para intuir onde estar e que jogada armar. Não bastasse isso, marca ferozmente. Mas especula-se que vai ser vendido. Então a pergunta que devemos nos fazer é: a quem interessa a venda do craque de um time que fez história e pode fazer ainda mais?

Nessa hora entra em campo a tal da austeridade, uma certa disciplina econômica que alguns gostam de dizer que é a bola da vez da justiça orçamentária, mas que nunca mostrou efeitos que levassem países à paz social, ao equilíbrio, a oferecer vida decente para todos os cidadãos.

Não importa que a austeridade não funcione porque ela agora é imperativo moral: insistem que o país está quebrado, que por isso precisamos cortar gastos em cultura, saúde e educação para, em seguida, bem na editoria ao lado, noticiarem o lucro estratosférico dos bancos privados garantindo que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Na economia e no futebol, a austeridade fala em “equilibrar as contas, fazer caixa, cumprir as metas”, e as respostas para uma possível negociação de Gerson passam por aí. Que contas, que caixa e quais metas não vem ao caso. Como também não ficamos sabendo quem fez as metas, por que fez as metas e o que se pretende com as metas.

Faz algum sentido para vocês? Pra mim, nenhum.

Assim que o craque é vendido, o clube sai atrás de uma “peça de reposição”. Venderam e em seguida vão comprar. O time muitas vezes é desmontado, as peças chegam e é preciso reiniciar o trabalho de formar uma equipe competitiva. Nos raros casos em que algum Jesus aparece, consegue fazer isso e o time é campeão de tudo, lá vem novo desmonte para que o ciclo recomece.

Quem é que está ganhando com tanta negociação? O torcedor? Não vejo o torcedor ganhando. Acho que, se fosse perguntando, o torcedor e a torcedora do Flamengo diriam em coro: não vendam o Gerson, não vendam ninguém, continuem jogando bem e deixando a gente sonhar.

Mas inventaram esse negócio de que time precisa ter gestão de empresa e de que os caixas estão estourados (não estou duvidando disso, mas me parece claro que vender jogador não é o que faz o caixa deixar de estourar porque faz décadas que os times viraram balcão de negócios e os caixas seguem estourando).

Time não é empresa, não precisa dar lucro nem deixar ninguém bilionário. Jogadores podem e devem ser bem pagos porque oferecem a todos nós algum resgate dessa experiência muitas vezes dolorosa que é viver. Mas de quanto dinheiro precisamos para viver uma vida decente?

Um time pertence a sua torcida e a mais ninguém. E talvez fosse hora de a gente se perguntar quem tanto ganha com essa compra e venda desenfreada de jogadores, quem lucra com o desmonte de um time vencedor, por que nossos talentos vão embora cada vez mais cedo e por que diabos por mais que vendamos nossos craques os caixas estão sempre estourados.

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