Todo mundo já teve no trabalho um chefe antipático, até com comportamento ético questionável. Que você não entendia nem achava justo que ele estivesse ali, ostentando poder e uma situação financeira privilegiada. Até a hora decisiva em que a competência dele era posta a prova e o chefe correspondia e mostrava porque ele estava no comando.

Hoje, o Flamengo é o chefe do futebol carioca. Com 37 títulos estaduais, mas também ampla superioridade sobre os rivais históricos do Rio de Janeiro no cenário nacional e sul-americano.

Com uma direção que rotineiramente toma decisões nada nobres, desde o trato pouco empático com as famílias das vítimas do incêndio no Ninho do Urubu em 2019 até a insistência em liberar presença de público nos estádios em meio à pandemia, já a maior tragédia da história brasileira. Moralmente indefensável.

Com Gabigol, um ídolo controverso, que carrega no seu “combo” muitos gols, mas também comportamentos infantis, dentro e fora de campo. Que precisa ser controlado por lideranças do elenco para o caldo não entornar, como Diego aos berros chamando o camisa nove à razão na saída para o intervalo.

O Fluminense usou um mosaico provocativo para tentar desestabilizar o rival: “orgulho de não ser como vocês”. De fato, a diretoria tricolor tem agido diferente na pandemia, respeitando mais a Ciência e os protocolos. E no geral o Flu, assim como Botafogo e Vasco, têm usado como narrativa para contrapor o domínio rubro-negro dentro de campo a imagem de clubes mais honestos, éticos e menos elitistas.

Pode até fazer algum sentido agora, mas em um passado não tão distante o Flamengo era tachado de “time de pobre, favelado, desdentado”. O “Framengo”. Várias piadas quando bandidos eram presos com a camisa do clube e um racismo escancarado. De torcedores e também dirigentes dos rivais cariocas.

Sobraram as reclamações contra arbitragens e a acusação de ser o tal “time do sistema”. Antes era da Globo, mas com a emissora brigada com o clube a ponto de abrir mão da transmissão do Carioca e o torneio acabar na Record, restam as teorias de conspiração. Todo título do Flamengo é “roubado”. Como se os outros três fossem donzelas arrependidas que nunca tiveram relações estreitas com a FFERJ e levaram vantagem em outros momentos. Sem Eurico Miranda, Vilela “Rei do Tapetão” e o bicheiro Emil Pinheiro.

O Fluminense entrou mordido na final de 2021. Escalou titulares contra o Junior Barranquilla pela Libertadores por necessidade na terça, mas a cabeça de todos nitidamente estava no sábado. Esperava vencer de novo, assim como no Brasileiro, em cima do cansaço e dos consequentes erros do rival no segundo tempo.

Roger Machado manteve Nenê e Fred como titulares e tentou pressionar nos primeiros quinze minutos atrás do gol que criasse uma vantagem. Mas não finalizou na primeira etapa, terminando com 32% de posse de bola. O Flamengo recuperou rápido o domínio, circulou a bola com técnica. Mesmo com Gerson abaixo, além de Everton Ribeiro e Bruno Henrique mantendo o rendimento bem inferior ao de 2019, o time de Rogério Ceni foi envolvente e encaminhou a vitória no primeiro tempo.

Com Gabigol funcionando como armador no passe para Arrascaeta entrar livre e sofrer pênalti do goleiro Marcos Felipe. Mais uma cobrança perfeita do camisa nove, que poucos minutos depois marcaria o segundo em chute cruzado de canhota. O marrento decidindo e provocando novamente.

No segundo tempo, a reação costumeira do Flu, porém com uma ladeira maior para subir. Gol de Fred de pênalti, as substituições que melhoraram o rendimento geral. Ceni, que pode ser acusado de tudo, menos de falta de coragem, arriscou tirando Gabigol e Arrascaeta, os craques do time e os melhores batedores em uma decisão que poderia ir para os pênaltis.

Acabou premiado com o terceiro gol todo construído por reservas: tabela entre Vitinho e Pedro, chute do centroavante e gol de João Gomes, que entrara na vaga de Gerson. 3 a 1, tricampeonato consolidado. O sexto.

Os tricolores, para variar, reclamam da arbitragem. Suposto pênalti de Arão cabeceando na própria mão no primeiro tempo e pedido de expulsão de Rodrigo Caio, já com cartão amarelo, pela falta dentro da área sobre Caio Paulista. Lances polêmicos, sem dúvida. Mas segundo as novas orientações da FIFA, a fraca arbitragem não errou. Pênalti, que é a falta máxima, e expulsão só em casos extremos, como entradas violentas ou jogador de linha salvando gol com a mão. E se a bola tocar em outra parte do corpo antes do braço a orientação também é não assinalar a penalidade máxima.

Resta o ódio. Jogar uma final de Copa do Mundo, como fez o Vasco nos 3 a 1 da primeira fase, única derrota dos titulares do Flamengo na competição. Mas pouco além disso. Muito pela incompetência de seguidas gestões dos três rivais, que comprometem as finanças, fazem os clubes perderem relevância, torcedores, público consumidor.

O Flamengo sempre teve mais fôlego por contar com a maior torcida do país. Quando a recuperação financeira equacionando dívidas se transformou em capacidade de investimento a vantagem começou a ficar nítida. Bastou acertar nas contratações para o time voar e o abismo se abrir de vez.

Mesmo com a direção que muitas vezes envergonha os torcedores mais conscientes. Mesmo com um Gabigol que é mais Romário que Zico no comportamento. Mas acertam mais que erram dentro de campo e levam as taças para casa. O nono título em dois anos e meio.

O Fluminense não ganha nada desde 2012, tirando a malfadada Primeira Liga. Vasco e Botafogo, apesar dos títulos estaduais na década passada, estão afundados na Série B e proporcionaram um espetáculo grotesco na decisão da Taça Rio em 180 minutos, vencida pelos cruzmaltinos nos pênaltis.

Não olham para o próprio rabo e preferem apontar o dedo. Para o “malvadão” que se organizou para ser hegemônico e agora busca rivais em outros estados. Porque, gostem ou não, o Flamengo manda no Rio de Janeiro. Aturem o chefe insuportável ou surtem, porque neste caso não dá para mudar de emprego ou campeonato.

(Estatísticas: Footstats)

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