O “boom” das estatísticas avançadas já chegou ao futebol há tempos. O desenvolvimento da análise de desempenho, que nasceu nos Estados Unidos, foi parte da evolução exponencial do futebol europeu, e agora, um serviço diferente chegou ao Brasil: o acompanhamento tático individual.

Foi na NFL, a liga de futebol americano dos Estados Unidos, que Diego Vieira teve a principal experiência da análise individualizada dos atletas. Essa cultura de aprimoramento já vinha desde o sistema esportivo integrado com a educação nos EUA. Para o brasileiro, era possível fazer essa ligação com o esporte da bola redonda, com um processo mais organizado e definido, para completar aquilo que se descobre de maneira empírica nos campos.

Assim surgiu a ideia da Outlier FC, empresa criada pelo ex-jogador de futebol no College americano, para aprimorar a parte tática dos jogadores em campo. Os clientes são os mais diversos possíveis, desde jovens das divisões de base buscando evolução até jogadores da Premier League, o melhor campeonato nacional do mundo.

“Me tornei auxiliar na NFL, no Pittsburgh Steelers, e passei a ter acesso às informações táticas, por onde a gente queria atacar, as funções necessárias de cada jogador, tudo que envolve a execução do atleta em campo. Como atleta fazia uma coisa de forma empírica, não tinha reflexão sobre os aspectos táticos, não sabia como o time queria atacar, como o adversário lia. Entrava, fazia o jogo, e era isso. Muitas vezes, para o rendimento, não condizia com o que eu tinha que melhorar para o coletivo. Comecei a aplicar isso, e deu muito certo”, explicou Diego.

A curiosidade e a experiência do ex-atleta encontraram eco no futebol, onde muitos jogadores viram o desempenho aumentar com o trabalho específico. Isso porque, especificamente no Brasil, nem sempre existe a busca pelo aperfeiçoamento individual, seja por falta de tempo ou estrutura. Com dados e opiniões, os analistas designados buscam aprimorar cada jogador dentro das necessidades coletivas de seus times.

“Os clubes têm informações, os analistas também, mas não têm quem dê o viés individualizado. Muitos clubes não fazem por opção, a maioria, por falta de tempo. No futebol europeu, começaram há mais tempo —aqui ainda está bem no começo. Principalmente no futebol, querem uma fórmula de quem fez e deu certo. A tendência é que continue crescendo. O grande desafio que a gente tem, minha maior função é educar, mostrar que isso existe e tem valor. A recepção é: ‘C…, velho, nunca soube disso'”, contou o empresário.

As dificuldades do calendário no futebol brasileiro, por outro lado, aumentam a importância do acompanhamento. Sem tempo para treinar, cada vez mais as comissões técnicas dividem conhecimento a partir de análises e imagens, criando inevitavelmente uma nova cultura no país.

“É uma forma de treinar ou mostrar algumas coisas aos atletas porque não há tempo de treinar e fazer isso. É o ideal? Não. Precisa colocar em prática a teoria que aprendeu. A prática é sempre diferente, a pressão, a emoção do momento, mas é uma maneira, sim, de estimular positivamente os comportamentos táticos já que não há tanto tempo para treinar”, opinou.

Não à toa, a Outlier FC conta com clientes diversificados e até negocia para oferecer estes serviços para um clube da Série A do Brasileirão, ainda não revelado. No país, apenas o Athletico possui uma equipe destinada a análise qualitativa e quantitativa individual dos jogadores.

“É uma conversa avançada para experimentarem, verem como é feito. O charme do serviço é conseguir individualizar esse conteúdo, com o histórico dele, o contexto familiar, o momento que vive, a comissão técnica, como vê a questão dos números. Existem vários clubes que têm interesse em executar esse acompanhamento de análise individual. É uma cultura que tem que ser criada desde a base, para virar rotina, parte do trabalho”, disse Vieira.

Estudando futebol

Na elite do futebol brasileiro, jogadores como Bruno Viana (Flamengo), Lucas Silva (Grêmio), Zanocelo (Santos), Saulo Mineiro (ex-Ceará) e Arthur Gomes (Atlético-GO), dentre outros, já usufruem do serviço. Curiosamente, embora a Outlier FC não tenha nenhuma ligação com agentes de atletas, todos eles participaram de transferências recentes, muito em função da evolução por conta do acompanhamento tático individual.

O caso de Saulo é emblemático. Sem ter passado por divisões de base, chegou “cru” ao Ceará, e agora rendeu R$ 9 milhões ao Vozão em transferência para o Yokohama FC.

“O Saulo Mineiro começou com a gente assim que chegou ao Ceará vindo do Volta Redonda, não teve divisão de base, bastante cru taticamente e ele acabou sendo o artilheiro do Ceará, foi vendido por R$ 9 milhões, faz coisas hoje que não imaginava que faria. O nível de percepção muda para cada atleta, até pelas vivências, mas a percepção no geral é essa, abrir um novo mundo, um leque de coisas que o cara tem para melhorar, pode continuar fazendo, e o resultado é bem rápido, bem interessante”, contou.

Como toda novidade, claro, o acompanhamento tático individual ainda conta com muita resistência do mercado da bola. Não que o serviço seja ignorado por clubes e atletas, mas ainda há um desafio para um melhor entendimento entre teoria e prática.

“O feedback de muitos jogadores, da análise pós-jogo, é que há muita demanda, pouca atenção, a dinâmica não é tão boa, então a informação nem sempre chega do jeito necessário. É desafiador o jeito de fazer a informação chegar ao jogador, conseguir trazer ele para o seu lado para ver valor no conteúdo e se esforçar para assimilar”.

Um dos clientes da Outlier FC é o atacante Joelinton, do Newcastle-ING. O brasileiro começou bem na Europa, com muitos gols na Áustria e na Alemanha, mas enfrentou dificuldades para jogar na Premier League. Por um amigo em comum, descobriu o trabalho da empresa, e em pouco tempo, mostrou evolução nos números.

“Depois da contratação dele, ficou claro que não teve a performance esperada pelos valores da negociação. Ficou longe do que fez no Hoffenheim, então identificamos o que ele fez de bom e o que precisa melhorar dentro do estilo de jogo do Newcastle. Ele recebia estímulos na Alemanha, chegou na Premier League com treinador de outro estilo, e deixou um pouco de perceber como executar suas funções. Estudamos e passamos comportamentos táticos que ele deveria fazer para cada adversário, como explorar o rival, e também dentro do que o time pedia dele. Depois do acompanhamento, ele tinha um gol e passou para quatro, fez três gols em dez jogos”, mostra.

Ao observar o crescimento na cultura de análise de desempenho, Diego Vieira acredita que, em prazo curto, clubes e jogadores incorporarão analistas táticos individuais.

“Temos indicativos de que cada vez mais os números estão presentes na vida dos jogadores, os técnicos estimulam mais a entender do jogo, sejam estrangeiros ou brasileiros. No máximo de três a cinco anos esses caras vão receber tanto estímulo no dia a dia de treinos. Meu objetivo é acelerar o processo, com mais atletas, resultados para que a roda comece a girar. A própria parte física passou a caminhar tem pouco tempo, aceitar a teoria e o conhecimento entrando no futebol”, afirmou.

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